quinta-feira, agosto 11



Aborto

Nem o silêncio, por vezes, sabe ser silencioso.
A voz... Os gritos... A alma...
Marcas de vida e de morte, como o definhar de um útero
Que sangra à passagem da lâmina raspadora.
-O prazer aos bocados atirados numa tigela.
O orgasmo adiado, corto em lânguidos gemidos.
O sangue: terra fértil cultivada - a semente.
O prazer é dor que apetece quando apetece quando apetecido.
A dor é prazer que "desapetece" quando "desapetecido"!
Lascivos pedaços de carne que se tocam, que se unem Húmidos... Pasmos de memória presos no olhar do tempo, A repulsa.
O nojo.
A impotência.
A carne é boa quando temperada, não em laivos de sangue doridos;
Não em inocências rasgadas, Trilhadas, espezinhadas.
A carne é boa quando oferecida, quando entregue em bandeja de beijos, sob o toque perpétuo de um bafo quente,
Sob o toque perpétuo do toque que toca e retoca.
O suor, a saliva, as secreções...
A consumação do desejo. - Liberdade!
A força que une eternamente dois corpos num só - a fusão!
E o milagre da vida numa tigela!

Os Fazedores de Letras - jornal da Ass. de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa edição nº 62 de junho - autor; Nuno Matos (imagem: google)

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